Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2012

Urgência

Olhar-te e dizer-te
que nunca desde sempre
deixei de te olhar.
Olhar-te e dizer-te.
Mesmo que não me vejas.
Mesmo que não me oiças.
Mesmo sabendo que nunca.
Desde sempre.

Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2012

Amo-te

Um incêndio nos meus lábios.
Uma tempestade nos teus olhos.

Entre nós, a paz arrasadora do rescaldo.



Do meu livro "Dos Intervalos Das Horas" (2011).

Tanto o meu amor

Tanto o meu amor
e tão breves os teus lábios,
e agora o meu amor
tanto e tão perdido,
e os teus lábios tão breves
e agora tão distantes
e agora tão distantes,
tanto o meu amor esquecido...

Quinta-feira, 9 de Fevereiro de 2012

Um minuto

Estamos suspensos num minuto.
Um minuto frágil como um sonho
no precipício do acordar.
O amor é apenas a ilusão que
nos faz esquecer o tempo,
que nos fecha as pálpebras
e nos embala o sono,
como se pudéssemos acreditar...
Para sempre dura um minuto.
Este minuto que passou
enquanto sonhávamos sonhar.

Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2012

Faz-de-conta

Eu sei que gostas de brincar
como se fosses ainda uma criança.
Eu também gosto de brincar.
Eu também quero ser criança,
jogar ao faz-de-conta, se o que
fazemos não conta realmente.
Diz-me, se brincarmos aos médicos,
podes fingir que tens coração e
eu posso fingir que o salvo de ti?
Deixas-me usar o bisturi?

Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012

(...)

Chamas-te vento e falas de mim,
e por ruas que ainda não conheço,
irrompendo casas sem endereço,
voam poemas, sonhos sem fim.

Domingo, 29 de Janeiro de 2012

A Queda



Eu não queria amar-te. Foste tu o culpado por tudo o que aconteceu. Foste tu, com os teus olhos, com a tua voz, e eu fui caindo cada vez mais fundo dentro desse poço escuro que és. Tu sabias o que ia acontecer. Tu soubeste desde o início. Tu sabias que não havia água dentro de ti. Tu sabias e deixaste-me cair. Empurraste-me até ao limite da loucura. E quando atingi o chão dentro de ti e me parti em pedaços que voaram em todas as direcções, gritaste-me, enraivecido. Mas eu já não te ouvi. Não te lembraste que eu era feita de vidro translúcido. Não te lembraste que eras mortal.


Fotografia gentilmente cedida por Rui Matos.

Terça-feira, 24 de Janeiro de 2012

Havia flores

Havia flores. Eu sei que havia flores,
embora tu não conseguisses vê-las.
Talvez porque a minha boca te cegava.
Ou seriam os teus olhos as flores que
recordo abertas nos meus. Havia luz
nas estrelas distantes e as tuas mãos
reflectiam-na como se fosse sol. Talvez
porque a noite era tão funda, quase
conseguíamos perceber a cor do dia.
Ou seriam as palavras que recordo fundas
no poema que a minha voz já não te lê.
As palavras, oceanos onde nadámos nus.
Onde nos afogámos. Onde ninguém se
lembrará de procurar os nossos corpos.
Talvez as marés tragam à costa as flores
que eu recordo. Talvez ao menos elas
tenham sobrevivido e falem de nós.
Havia flores. Eu sei que as havia.

Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2012

Nuvem, um estado de ser, uma condição

Para se ser uma nuvem é preciso saber de cor o céu. E as cores do mundo. É preciso carregar dentro do peito o mar inteiro e ainda ter espaço para as recordações. E para as palavras. É preciso ouvir poesia no vento e conhecer todas as ruas com nome de saudade. E de amor. E às vezes também é preciso morrer. E morrer. Todas as nuvens sabem que há dias de céu limpo e de azul perfeito. Para se ser uma nuvem é preciso saber.

Domingo, 15 de Janeiro de 2012

A noite é silêncio

Sei que me ouves,
é tarde demais e
a noite é silêncio,
mas mesmo assim,
sei que me ouves.
Estamos tão longe
e toco-te a pele e
digo-te ao ouvido,
digo-te amor...
Tu não respondes,
a noite é silêncio,
mas mesmo assim,
sei que te oiço.