terça-feira, 21 de março de 2017

Um poema suspeito

Nada podia
levar-me a suspeitar
que este poema não queria
ser escrito
quando pousei a caneta
no papel e

quarta-feira, 15 de março de 2017

Marés

Faço-me de noites líquidas
de solidão plantada em
alto mar

estou nas marés como
elas estão nas minhas palavras

inabalavelmente

pergunto-me (contra a corrente)
se algum dia chegarei a terra
firme ou se acabarei
engolida
pelo sonho de um monstro
maior do que eu.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Daquela tarde plácida

Ficaria sobretudo a memória
de uma longa espera naquela
tarde plácida

de neblinas e silêncio
a selar as nossas bocas

ao longe a silhueta do destino
que não seguimos
a desaparecer entre ruas

ficaria sobretudo a memória
do peso das pálpebras depois
das chuvas

do teu amor sobre o meu peito
descompassado

nas janelas as primeiras luzes
que não contámos
a acender-se entre estrelas

ficaria sobretudo a memória
da sombra dos meus gestos no
teu rosto

a cor do anoitecer a embalar
o canto dos gatos vadios e

os sussurros dos fantasmas
que arrastávamos na voz

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Memórias de um outro eu

Quantas de mim já fui, serei,
quantas vidas já vivi?
Quantas vezes fui eu mesma,
eu outra, eu ninguém?
Quantas vezes já morri, em
quantas bocas, e voltei?

E se um dia eu me perder
nestes meus eus, se um dia
eu não souber voltar a mim,
se eu for outra que não esta
e o meu nome se perder,
saberei?...

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Abro este grito

Abro este grito e
solto a garganta
tanta sede tanta
e o amor quase
sem voz quase
sem corpo ainda
a estalar a terra
a erguer-se como
um morto-vivo
cheio de fome
cego de tudo
abro este grito e
solto o coração
tanto sonho tanto
e o amor ainda

terça-feira, 12 de julho de 2016

Fome

Sabes que a tua fome é insaciável
quando todas as palavras não te chegam

não há solução para a vida como
não há solução para a morte

querem fazer-te acreditar

mas tu sabes que a verdade existe
há-de nascer há-se escrever-se

uma ferida na pele do poema
um incêndio que tu ateaste
a arder-te nos versos

ainda não te disseram que tudo
começa e acaba na água
no fundo do mar no fundo do peito

não há solução para o amor como
não há solução para o mundo

querem fazer-te acreditar

mas tu sabes ouvir os rios que correm do silêncio até ao grito mais azul

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Sem título

Bem sei que a vida é uma cidade
constantemente bombardeada,
que os pulmões das palavras antes
puras, estão doentes

mas eu ainda respiro

deixa-me sonhar, deixa-me escolher
o azul límpido e súbito do amor

deixa-me, ao menos, acreditar
na insignificância do poema a
triunfar sobre o mundo,
na certeza dos teus braços a
salvar-me de tudo o que dói

que eu ainda respiro

deixa-me crer
no riso, na ternura, na flor deste
momento

na vontade de fechar os olhos e
ver o teu rosto, sempre,
na manhã luz inteira, frescura de
bosque, canto de água,
na árvore que dá fruto,
que continua

que respira

que, mesmo depois de nós, seremos

terça-feira, 14 de junho de 2016

Promessa

Há em mim ainda uma promessa
por abrir
um campo de girassóis por nascer
a brancura de uma palavra por esculpir.

O coração é um segredo sempre
a acontecer.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

O canto de uma ave

Respiro a claridade a maresia
a voz da criança que ri ao longe
chega-me como o canto de
uma ave
que há muito deixei de ser

ainda me lembro o que é ter asas
e pulmões mágicos para voar

é por isso que respiro o céu e
o tempo e choro sorrindo
o mar
que se estende aos meus pés.

terça-feira, 19 de abril de 2016

O homem que chegou tarde ao barbeiro da esquina

Arranja-me um cigarro
um ombro amigo
um copo de cerveja gelada
uma palavra de conforto
um prato de tremoços
que eu hoje estou de rastos
arranja-me um jornal
uma história que me distraia
um lugar junto à janela
um aceno de cabeça
um engraxador de sapatos
que eu hoje não me quero
arranja-me estes versos
desarticulados e tristes
o cabelo e o casaco
e esta barba por fazer
arranja-me uma vida
se não for pedir muito
e um copo de gin
que eu hoje cheguei tarde
e já não tenho tempo
para procurar por mim