quarta-feira, 28 de junho de 2017

Escrevi-te mais de mil poemas neste céu

Escrevi-te mais de mil poemas neste céu
de silêncio
nunca o mundo foi tão pequeno como
esta noite
nunca eu fui tanto querer e tanto sonho
o amor tão perfeitamente lúcido
uma janela aberta para as estrelas e o
teu nome
mais de mil vezes repetido ao infinito

terça-feira, 25 de abril de 2017

Liberdade

Como um pássaro de asas abertas
que abrisse caminho até ao fundo do mar.
Ou um poema feito de vento
que arrancasse os silêncios do chão ao passar.
Como uma multidão de estrelas
que se acendesse até ao fundo das palavras,
até ao fundo da verdade.
Como um jardim de vermelhos cravos
que florisse sem medo no peito,
até à liberdade.

Abril, 2012

segunda-feira, 3 de abril de 2017

A dois

Viver contigo é saber que as meias
ficam pousadas aos pés da cama
e que a cama é sempre mais quente
do teu lado, mesmo se ainda não
estás, é saber que só durmo quando
te deitas e os teus braços me guardam,
mesmo que seja tarde e a sombra da
noite me pese nos olhos, é saber que de
manhã partilharemos sonhos e torradas
enquanto bebemos café, mesmo que
o mundo não pare de doer, é saber
que o poema somos nós que o
fazemos, com as mãos mergulhadas
em detergente, enquanto lavamos
a loiça e falamos de amor.

sábado, 1 de abril de 2017

Entrevista n' "A Toca Do Nunca"

A Raquel Pereira convidou-me a falar de poesia. E eu aceitei, claro. Aqui fica o link para a nossa "conversa", para quem quiser visitar "A Toca Do Nunca".

Obrigada, Raquel, por tão bem me receberes na tua casa.

https://atocadonunca.wordpress.com/2017/03/31/encontros-descrita-uma-nuvem-de-poemas/

terça-feira, 21 de março de 2017

Um poema suspeito

Nada podia
levar-me a suspeitar
que este poema não queria
ser escrito
quando pousei a caneta
no papel e

quarta-feira, 15 de março de 2017

Marés

Faço-me de noites líquidas
de solidão plantada em
alto mar

estou nas marés como
elas estão nas minhas palavras

inabalavelmente

pergunto-me (contra a corrente)
se algum dia chegarei a terra
firme ou se acabarei
engolida
pelo sonho de um monstro
maior do que eu.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Daquela tarde plácida

Ficaria sobretudo a memória
de uma longa espera naquela
tarde plácida

de neblinas e silêncio
a selar as nossas bocas

ao longe a silhueta do destino
que não seguimos
a desaparecer entre ruas

ficaria sobretudo a memória
do peso das pálpebras depois
das chuvas

do teu amor sobre o meu peito
descompassado

nas janelas as primeiras luzes
que não contámos
a acender-se entre estrelas

ficaria sobretudo a memória
da sombra dos meus gestos no
teu rosto

a cor do anoitecer a embalar
o canto dos gatos vadios e

os sussurros dos fantasmas
que arrastávamos na voz

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Memórias de um outro eu

Quantas de mim já fui, serei,
quantas vidas já vivi?
Quantas vezes fui eu mesma,
eu outra, eu ninguém?
Quantas vezes já morri, em
quantas bocas, e voltei?

E se um dia eu me perder
nestes meus eus, se um dia
eu não souber voltar a mim,
se eu for outra que não esta
e o meu nome se perder,
saberei?...

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Abro este grito

Abro este grito e
solto a garganta
tanta sede tanta
e o amor quase
sem voz quase
sem corpo ainda
a estalar a terra
a erguer-se como
um morto-vivo
cheio de fome
cego de tudo
abro este grito e
solto o coração
tanto sonho tanto
e o amor ainda

terça-feira, 12 de julho de 2016

Fome

Sabes que a tua fome é insaciável
quando todas as palavras não te chegam

não há solução para a vida como
não há solução para a morte

querem fazer-te acreditar

mas tu sabes que a verdade existe
há-de nascer há-de escrever-se

uma ferida na pele do poema
um incêndio que tu ateaste
a arder-te nos versos

ainda não te disseram que tudo
começa e acaba na água
no fundo do mar no fundo do peito

não há solução para o amor como
não há solução para o mundo

querem fazer-te acreditar

mas tu sabes ouvir os rios que correm do silêncio até ao grito mais azul