terça-feira, 12 de julho de 2016

Fome

Sabes que a tua fome é insaciável
quando todas as palavras não te chegam

não há solução para a vida como
não há solução para a morte

querem fazer-te acreditar

mas tu sabes que a verdade existe
há-de nascer há-se escrever-se

uma ferida na pele do poema
um incêndio que tu ateaste
a arder-te nos versos

ainda não te disseram que tudo
começa e acaba na água
no fundo do mar no fundo do peito

não há solução para o amor como
não há solução para o mundo

querem fazer-te acreditar

mas tu sabes ouvir os rios que correm do silêncio até ao grito mais azul

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Sem título

Bem sei que a vida é uma cidade
constantemente bombardeada,
que os pulmões das palavras antes
puras, estão doentes

mas eu ainda respiro

deixa-me sonhar, deixa-me escolher
o azul límpido e súbito do amor

deixa-me, ao menos, acreditar
na insignificância do poema a
triunfar sobre o mundo,
na certeza dos teus braços a
salvar-me de tudo o que dói

que eu ainda respiro

deixa-me crer
no riso, na ternura, na flor deste
momento

na vontade de fechar os olhos e
ver o teu rosto, sempre,
na manhã luz inteira, frescura de
bosque, canto de água,
na árvore que dá fruto,
que continua

que respira

que, mesmo depois de nós, seremos

terça-feira, 14 de junho de 2016

Promessa

Há em mim ainda uma promessa
por abrir
um campo de girassóis por nascer
a brancura de uma palavra por esculpir.

O coração é um segredo sempre
a acontecer.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

O canto de uma ave

Respiro a claridade a maresia
a voz da criança que ri ao longe
chega-me como o canto de
uma ave
que há muito deixei de ser

ainda me lembro o que é ter asas
e pulmões mágicos para voar

é por isso que respiro o céu e
o tempo e choro sorrindo
o mar
que se estende aos meus pés.

terça-feira, 19 de abril de 2016

O homem que chegou tarde ao barbeiro da esquina

Arranja-me um cigarro
um ombro amigo
um copo de cerveja gelada
uma palavra de conforto
um prato de tremoços
que eu hoje estou de rastos
arranja-me um jornal
uma história que me distraia
um lugar junto à janela
um aceno de cabeça
um engraxador de sapatos
que eu hoje não me quero
arranja-me estes versos
desarticulados e tristes
o cabelo e o casaco
e esta barba por fazer
arranja-me uma vida
se não for pedir muito
e um copo de gin
que eu hoje cheguei tarde
e já não tenho tempo
para procurar por mim

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Ainda temos tempo

Espera não vás já
ainda temos tempo para um abraço
a chuva ainda não começou a cair
e as minhas mãos estão livres o
chapéu encolhido na bolsa a tiracolo
ainda temos tempo para desarrumar
palavras cabelos para dizer
adeus até logo vejo-te mais tarde
e vou ter saudades a cada minuto
sem ti que a chuva traz-me sempre
o som da tua voz a cair de mansinho
no meu peito e as horas custam
a sonhar eu sei ainda não começou
a chover e tu ainda estás aqui mas
a tua ausência já faz sombra no meu
coração por isso espera não vás já
que ainda temos tempo para um abraço
para um beijo para um amo-te para um
espero por ti para adormecer

sexta-feira, 11 de março de 2016

Cantiga da rua

Eu, no teu lugar, nem olhava para trás,
calçava os sapatos de solas novas e
saía para a rua a cantar, talvez dançasse
com o primeiro estranho que encontrasse
pelo caminho, só para estrear as solas
dos sapatos, rodopiar os sonhos no
meio de uma praça apinhada de gente,
isso é que sim, vale a pena, e depois
continuava, serena, o meu caminho, as
solas dos sapatos já mais felizes, a minha
voz a fazer ricochete na água deixada
pelas últimas chuvas, o Inverno está
de partida e há flores a rir às escondidas,
eu, no teu lugar, quando me acabassem
as canções, deixava este poema e
punha-me a rir com elas. 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Sem título

é urgente partir em busca da
verdade, esgravatar a terra até
encontrar raízes sujar as mãos

só procurando se encontram as
palavras mais puras sementes

antes das chuvas depois do
silêncio iremos

é esse o instante em que
seremos

eu abro a porta se prometeres
não olhar para trás 

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Espelho meu, espelho meu

A poesia não pode agradar a todas as pessoas,

aliás, a poesia não tem que agradar.
A poesia tem que ser alma. Do poeta.
Das pessoas. A alma das coisas.
Quem diz que um cinzeiro não arde de amor?
Que uma janela não chora desesperadamente
num dia de chuva? As coisas têm mais alma
do que muitas pessoas. As pessoas perdem
a alma no mundo dos espelhos. E depois
não gostam do reflexo oco que vêem no poema.
Sou capaz de apostar que o poema
também não gosta de se ver nos olhos delas,

afinal, as pessoas não podem agradar todas à poesia.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Dica de sobrevivência

Claro que a poesia não serve para nada.

É por isso mesmo que é
imprescindível à sobrevivência da alma,
como o são todas as coisas belas e
absolutamente inúteis.

A morte por insuficiência poética é, de todas, a mais triste.