segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Olhando-te


E olhei-te mas já não te vi. Olhei-te como se tivesse partido para muito longe e tu fosses já uma recordação distante e dolorosa. Olhei-te como se a saudade fosse o teu rosto e o teu rosto também já não me visse. Como se a noite não acabasse mais no teu olhar. Como se a noite em que te tornaste não tivesse fim. Como se nunca mais fosse ver um amanhecer em ti porque não pode amanhecer numa noite que não tem fim. E senti-me morrer por dentro de mim. Senti morrer todas as coisas que pensei saber, todas as certezas, todas as razões. E vi na tua boca todos os beijos que não iríamos dar. Todas as palavras que perderam o sentido e que sem sentido eu não poderia ouvir. Todas as palavras que já não valem nada porque já não são palavras nossas. Vi nos teus lábios a minha pele que nunca mais seria tua. Os meus lábios nos teus lábios que já não eram meus. As tuas mãos. As tuas mãos como notas de uma música que eu nunca mais iria conhecer. E morri mais um pouco. Como uma flor que murcha devagar. Morri calmamente. Como se a morte fosse tão leve como o teu respirar que nunca mais iria adormecer-me. E sorri perante o teu silêncio que nunca mais iria tocar-me. Sorri como se pudesse guardar tudo o que fomos nesse sorriso. Como se as lágrimas não pudessem fazer parte da nossa história porque já não tínhamos história. E soube que iria lembrar a palavra amo-te na tua voz como um som indefinido. Como um ruído de vento. E soube que um dia iria esquecer a palavra amo-te na tua voz porque não haveria vento. E talvez a palavra amo-te também já não tivesse lugar no meu peito quase morto. Quase tranquilo. Quase em paz. E soube que nunca mais iria olhar-te e dizer-te até amanhã.


Imagem retirada de http://olhares.aeiou.pt

20 Comments:

Blogger antonio - o implume said...

Certas ausências marcam-nos assim.

2/16/2009  
Blogger LORENZO MONSANTO said...

"E morri mais um pouco. Como uma flor que murcha devagar. Morri calmamente. Como se a morte fosse tão leve como o teu respirar que nunca mais iria adormecer-me."

Mortes tranquilas que trazem novos nascimentos.
Mortes que revelam o crescimento.
Porque o sofrimento é e traz-te ao crescimento.

Ao teu. Interior.

A calma de quem sabe e compreende o que a vida teceu.
Vida também que, deste às palavras...pois telas que podemos admirar, se tornaram...

2/16/2009  
Blogger nuvem said...

Antonio, obrigada pelas palavras deixadas.

Lorenzo, obrigada e um beijo para ti.

2/16/2009  
Blogger Big Girls Don't Cry said...

Amei...
pleno de verdadeiro sentimento...

Beijinhos

2/17/2009  
Blogger Ana Grama said...

Nunca mais dizer até amanhã, nunca mais dizer bom dia, nunca mais ser a mesma coisa dizer qualquer das coisas que disseste àquela pessoa a outra pessoa qualquer.

Muito bonito minha nuvenzinha... muito triste minha companheira "Madalena".)

beijinhos

2/17/2009  
Blogger nuvem said...

Big Girls Don´t Cry, acho que só com sentimento se pode escrever poesia... Sem ele, escrevemos apenas palavras. Um beijinho :)

Ana Grama, é isso mesmo querida amiga... E o nunca é uma palavra muito forte, muito dura. Um beijinho cheio de carinho e um abraço apertadinho para ti, minha "Pulgarzinha" linda :)

2/17/2009  
Blogger tonsdeazul said...

Nuvem bem sabes que adoro ler as tuas palavras. Estão sempre cheias de sentir e entram-me pelos sentidos adentro.
És linda! Um beijinho grande

Nota: lancei-te um desafio lá no tonsdeazul.

2/17/2009  
Blogger nuvem said...

Tonsdeazul, obrigada pelas palavras docinhas :) Quanto ao desafio, vamos lá ver se consigo ter bagagem para mais um, a acumular com todos os que a vida me coloca... A coisa tá preta! Um beijinho para ti :)

2/17/2009  
Blogger PavlovDoorman said...

As palavras da Menina Utzi continua a surpreender-me com a beleza crua das palavras que tão bem encadeia...

"As tuas mãos como notas de uma música que eu nunca mais iria conhecer"

Este pedacinho em particular está divinal.

Beijinhos e muita força Menina Utzi

2/17/2009  
Blogger nuvem said...

Pav, ainda bem que apreciaste. Beijinhos

2/17/2009  
Blogger Peregrina said...

É triste, mas ficou muito bonito. Transparece sinceridade :)

2/17/2009  
Blogger as velas ardem ate ao fim said...

olhar e não ver.costume em mim..

um bjo

2/17/2009  
Blogger nuvem said...

Peregrina, obrigada. Um beijinho para ti.

As velas ardem até ao fim, espero que te aconteça também com surpresas boas... :) Beijinhos

2/17/2009  
Blogger Sávio Fernandes said...

Para mim, o texto em si é muito bom mas há algumas passagens que estão fantásticas.

[E estive a ler outros textos ao som de The scent of love.
Excelente.]

2/17/2009  
Blogger Donagata said...

Momento verdadeiramente fantástico que, pela sua beleza e, quiçá, pela minha recente vulnerabilidade, me deixou extremamente comovida.

Devia ser proibido escrever com a alma.

Beijos apertadinhos.

2/18/2009  
Blogger nuvem said...

Sávio, uma boa música, por si só, também faz poesia, não é?...

Donagata, se fosse proibido eu já tinha apanhado uma pena de prisão perpétua hehehe :) Ainda bem que gostou... Beijos, muitos muitos.

2/18/2009  
Blogger Amor amor said...

Se for para morrer, que seja assim...perfeito, Nuvem!!!

Beijinhos doces cristalizados!!! ;o*

2/18/2009  
Blogger nuvem said...

Amor amor... gosto de um perfume com esse nome, sabias? :) Beijinhos

2/18/2009  
Anonymous carpedieminloveman said...

pergunto-me se és tu todas essas palavras...

2/19/2009  
Blogger nuvem said...

Carpedieminloveman, sou mesmo eu, em cada uma delas e em todos os espaços que as separam...

2/19/2009  

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