quinta-feira, 28 de julho de 2011

A janela

E o vento? Tu já ouviste bem o vento? Sim, o vento que entra de mansinho pela janela que deixamos aberta sem querer. Essa janela. A janela que há sempre algures no lugar que somos. Tu já ouviste? O sussurro que ele faz ao passar pelas frestas das palavras. É como se segredasse qualquer coisa que já foi e que não se fez notar, qualquer coisa que nos escapa a cada momento. Um plano engendrado pelo destino, cujos pormenores se desvendam sempre um minuto mais tarde, sempre tarde. É que ele engana, o vento. Parece inofensivo, pois parece. Mas quando se zanga e se torna vendaval, e às vezes nem se espera por isso porque o mar parece calmo, parece tranquilo, mas se se torna vendaval, não há palavras que resistam. Ele faz delas turbilhão e parte-as em mil pedaços contra as paredes, espalha-as cruel pelo chão. É bem capaz de matá-las sem remorsos. E depois? O que é uma vida sem elas? É ver o céu e não saber o que é o céu, não saber as letras que o compõem, não saber o céu porque o céu não existe se eu não sei dizê-lo. É como um bando imenso de pássaros a esconder o céu que já não é céu com as asas abertas e o céu a desaparecer. É o céu que um dia foi céu e que não é céu, que não é nada, engolido pelos pássaros que já nem pássaros são porque também não sei dizê-los. Tu já viste o que é o vento? Tu já viste? Tu conheces-lhe os segredos? Não tem dó nem piedade, não te enganes. Por isso te digo, cuidado com a janela. Essa janela aberta por onde entra o cheiro das flores, trazido pelo vento ameno nos dias de sol. As flores que tu hoje podes dizer. O mesmo vento que lhes arranca as pétalas um dia, para que deixem de ser flores. Essa janela por onde entra o mundo inteiro e o sol e a lua e as estrelas. E por onde pode voar a liberdade em dias de vendaval. A janela que há sempre algures no lugar que somos.

2 Comments:

Blogger Melga do Porto said...

Olá!
Há lugares onde sempre voltamos. Fazemo-lo por nenhuma razão ou todas. Nesta nuvem caminho feito sombra de mim mesmo e a que não devo perder de vista. Deixaria de existir se tal acontecesse, pois esse o fado de ser sombra. Encontrei hoje e aqui verso rendido ao correr da pena da prosa ou prosa que se apaixonou por verso.
Janelas de vida na vida!

9/02/2011  
Blogger ruth ministro said...

Há lugares onde voltamos e voltamos e onde nos sentimos sempre em casa. É bom saber que este é um deles...

Beijos

10/12/2011  

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