segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Em casa dos meus pais

O Natal é sempre passado em casa dos meu pais. Somos poucos, mas tão grandes que o amor que nos une mal cabe à mesa da consoada. A minha mãe sorri. A minha mãe sorri sempre porque é feita de sorriso, não de carne e osso como as outras pessoas, ela não, ela é sorriso de dentro para fora, sorriso nascente de rio, que transborda. Acho mesmo que nascem flores nas margens do seu sorriso e que há borboletas a esvoaçar em volta delas. O sorriso da minha mãe guarda-nos a todos no seu interior e ainda sobra espaço. Na verdade, julgo que todos guardamos também um pouco do seu sorriso no peito, para nos aquecer nos dias frios. O meu pai ri. Quando o meu pai ri, toda a gente ri. O meu pai é daquelas pessoas que sabem fazer rir. Quando éramos pequenos, eu e o meu irmão, o meu pai contava anedotas e histórias engraçadas e toda a gente ria. Doía-me a barriga e a culpa era dele. E quando faltava a electricidade devido a algum temporal, lá em casa era uma festa. Não havia cá medo do escuro, porque a nossa brincadeira preferida era acender velas na sala e sentarmo-nos a ouvir o meu pai a contar anedotas. Com o tempo, o seu riso também foi dando lugar ao peso das preocupações e cada vez menos o meu pai ri. Mas quando ri, o mundo muda de lugar na cadeira, para rir com ele. O meu irmão observa. O meu irmão é um excelente observador. A realidade deve ser para ele como um filme, no qual ele vai escrevendo as falas geniais do narrador. O meu irmão tem o dom da doçura. Mesmo em silêncio, quando nos olhamos sinto sempre o calor de um abraço terno, a ternura de uma brincadeira de crianças. Tenho um amor imensurável pelo meu irmão. Entre nós há uma eternidade que mais ninguém conhece, com montanhas e planícies, e céu e mar, e caminhos cheios de sol, e a frescura de árvores com raízes fundas de recordações. Na casa dos meus pais, ainda tenho um quarto. O tecto tem dezenas de estrelas fluorescentes que colei quando ainda lá vivia. No Natal, durmo sempre nesse quarto e sinto-me outra vez pequenina, outra vez em casa, no único lugar onde nada de mal me pode acontecer, no único lugar onde as estrelas nunca deixam de brilhar. Não há nada como o Natal em casa dos meus pais. Não há sonhos na mesa, a minha mãe não os faz. Prefere pendurá-los magicamente, um para cada um de nós, na árvore de Natal, como se fosse mais uma das suas surpresas e nenhum de nós soubesse dela. Nós fazemos de conta, só para a ver sorrir.

2 Comments:

Blogger Lídia Amorim said...

Que lindo!!

1/12/2012  
Blogger ruth ministro said...

Obrigada, Lídia :)
Um beijinho.

1/12/2012  

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